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alongamento
Gente que estica
Idade, sexo, herança genética, hormônios e
"memória" corporal afetam flexibilidade, mas exercícios podem ajudar
a manter músculos longos mesmo na terceira idade
Flávio Florido/Folha Imagem
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Sylvaine Charrier,
que trabalha como contorcionista do circo Plume |
AMARÍLIS LAGE
Da Folha de São Paulo - Equilíbrio
No centro do picadeiro, a contorcionista parece feita de borracha.
Estica de um lado, puxa do outro e faz parte do respeitável público
resgatar o velho sonho de fugir com o circo. Mas, sem querer ser
estraga-prazeres, é bom avisar: deixe o contorcionismo fora de suas
ambições circenses.
A flexibilidade, fundamental nesse tipo de atividade, pode ser
aprimorada com exercícios. Mas grande parte da capacidade de esticar
o corpo está ligada a componentes genéticos.
"Se você não "escolheu bem" seus pais, esqueça", brinca o médico
Cláudio Gil Soares de Araújo, diretor da Clinimex -Clínica de
Medicina do Exercício. "Pode ver que muitos desses artistas vêm de
famílias com tradição em contorcionismo."
Essa "herança" inclui a titina, conhecida como a "proteína da
flexibilidade". Embora todas as pessoas tenham essa proteína nas
fibras musculares, uma parte dela é variável, e essas mudanças
ajudam a definir se você será mais ou menos maleável, diz Tania
Salvini, professora de fisioterapia da Universidade Federal de São
Carlos.
Uma das formas de saber em que grupo você se encaixa é um exame
conhecido como Flexiteste, que foi desenvolvido por Soares. Composto
por 20 movimentos, cada um com uma pontuação que varia de zero a
quatro, o exame mede quão flexível alguém é.
Quem alcança uma pontuação acima de 70 tem hipermobilidade. Isso não
é, necessariamente, uma característica boa: a síndrome de
hipermobilidade benigna, que leva a um nível de flexibilidade muito
alto nas articulações, costuma gerar dores nas extremidades do
corpo.
Mesmo em casos menos extremos, a mobilidade excessiva pode ser um
problema. "Se um atleta tem frouxidão ligamentar, o risco de ele ter
uma entorse no tornozelo enquanto corre é grande. Em casos assim, o
ideal é deixar a musculatura do tornozelo dele mais tensa", diz o
fisioterapeuta José Luís Pimentel do Rosário, conselheiro do Crefito
(Conselho Regional de Fisioterapia e Terapia Ocupacional) de São
Paulo.
Além disso, a flexibilidade excessiva também pode afetar o
funcionamento de órgãos internos. Uma pesquisa realizada por Soares,
da Clinimex, constatou que uma alteração cardíaca conhecida como
prolapso (deslocamento) da válvula mitral é mais comum em mulheres
com hipermobilidade.
Não por acaso o problema é mais associado a mulheres. De modo geral,
elas são muito mais flexíveis que os homens. Essa diferença surge
após os sete ou oito anos de idade -até então, meninos e meninas
apresentam corpos igualmente maleáveis. Na puberdade, porém,
características hormonais levam as mulheres a ter uma mobilidade
maior.
Durante a gravidez, os hormônios voltam a atuar, deixando as
mulheres ainda mais flexíveis -uma preparação para as exigências do
parto.
Por volta dos 40 anos, tanto homens quanto mulheres tendem a perder
flexibilidade. O ganho de peso e o sedentarismo contribuem para
isso, mas o processo também está ligado à maior rigidez e à menor
hidratação do tecido conjuntivo.
Corpo travado
Uma das principais conseqüências da perda de flexibilidade é que os
músculos se tornam mais curtos. "A musculatura encurtada deixa os
músculos numa posição complicada. Isso cria desgastes nas
articulações, e a pessoa precisa usar mais força para fazer as
mesmas atividades", diz Rosário.
Além disso, o "endurecimento" pode levar a "compensações" em outras
áreas do corpo. O professor de ioga Kalidas Nuyken, proprietário do
Surya Espaço de Yoga, em São Paulo, exemplifica isso com o ato de
pegar um livro numa estante. "Quem tem o ombro flexível levanta a
mão facilmente. Já quem não consegue levantar muito o braço inclina
o corpo para trás, para aumentar o alcance da mão, e tende a jogar a
lombar para a frente." Resultado: dores nas costas.
Treino
A boa notícia é que, a despeito de sexo, idade ou herança genética,
ninguém está inexoravelmente fadado ao grupo daqueles que gemem até
para amarrar os cadarços. A flexibilidade é treinável, e os músculos
se adaptam aos exercícios de alongamento.
Essa capacidade de ajuste permite, por exemplo, que pessoas de
qualquer idade aprendam ioga, afirma Nuyken. "Algumas pessoas podem
demorar mais que outras, mas não tem limite de idade."
O processo também ocorre no sentido contrário, explica Salvini, que
é especialista em modelos de plasticidade muscular. "Se pararmos o
alongamento, os músculos se encurtam novamente."
A "memória" corporal também tem um papel importante nesse vai-e-vem
muscular. Quem fez muitos exercícios de alongamento quando jovem
terá mais facilidade para recuperar essa flexibilidade.
Isso ajuda a explicar por que é complicado aprender balé ou
ginástica olímpica já na fase adulta. Segundo Salvini, como vários
movimentos característicos dessas atividades são antifuncionais e
não fazem parte de nossas ações normais, os músculos só se adaptam a
eles se a atividade for realizada ainda na infância, quando o tecido
conjuntivo está no auge de sua elasticidade.
Para manter a flexibilidade alcançada, os exercícios de alongamento
devem ser feitos de duas a três vezes por semana. Cada grupo
muscular deve ser alongado de quatro a seis vezes, e as posições
devem ser mantidas por 30 segundos.
O melhor método? Aquele que dá prazer, responde Rosário. Em seu
mestrado, realizado na USP (Universidade de São Paulo), ele comparou
o alongamento normal, no qual braços, pernas etc. são esticados
separadamente, e o RPG (Reeducação Postural Global), que alonga
cadeias musculares. Segundo ele, não houve diferença no ganho de
flexibilidade, embora o RPG tenha melhorado a postura dos
participantes.
Para o presidente da Sociedade Brasileira de RPG, Oldack Borges de
Barros, flexibilidade e postura são aspectos interligados. "Quando
há uma deformação da postura, isso já é o reflexo de que ali houve
uma perda de flexibilidade articular."
Esse problema, segundo ele, decorre não apenas do sedentarismo mas
também da prática de exercícios -se alguém faz um tipo de esporte,
tende a perder a flexibilidade nas áreas que não exercita. "Quem só
corre, por exemplo, tende a perder flexibilidade na coluna vertebral
e nos braços."
A contribuição do alongamento para a prática de esportes também é
discutida: músculos longos e flexíveis ajudam muito no desempenho
das atividades físicas, mas algumas pesquisas questionam a validade
de fazer alongamentos imediatamente antes dos exercícios -há até
quem defenda que esse hábito é prejudicial.
Essa, porém, é uma questão ainda nebulosa, diz Salvini. "Dizem que,
antes do exercício, o alongamento tem uma atuação nos receptores
musculares, o que diminuiria o rendimento. Mas a questão ainda não
está resolvida, pois também há trabalhos mostrando o contrário", diz
ela, ressaltando que o alongamento após os exercícios não é
questionado.
Enquanto essa polêmica não é resolvida, um horário do dia segue sem
contra-indicação: a hora do acordar. "Espreguiçar é um alongamento
que faz muito bem ao corpo", afirma Barros. "E aprender é fácil:
basta observar qualquer gato."
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